quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Atraso


Naquela roda de amigos, em volta de uma mesa de bar, eu estava feliz. Entre eles, podia ser quem quisesse e, ainda assim, eles me aceitavam. Já fazia duas horas que eu estava sentado naquele ambiente que era comparado a um buraco. Quando ela chegou, nós dois levamos um choque. Eu fiquei estático, tentando disfarçar meu embaraço e minha alegria. Ela cumprimentou todos que estavam na mesa e quase de súbito, deu-me um beijo, mas caiu em si antes de fazê-lo. Puxou uma cadeira e sentou. Eu não parava de observá-la.

Ela sabia que eu a estava encarando. Tentava não olhar na sua direção, mas o desejo de poder olhar em seus olhos novamente era impossível de conter. Por muitas vezes ela se infiltrava nas minhas conversas e fazia algum comentário. De repente, ao redor desse comentário, nós começávamos a conversar. Só nós dois. E nos perdíamos nas palavras; um se perdia na voz do outro. Após tanto tempo, tínhamos assuntos intermináveis para discutir.

Freqüentemente, eu tinha notícias dela através de nossos amigos em comum. Freqüentemente, pensava nela, se ela estava pensando em mim e, de uma forma indireta, eu invadia a vida dela. E ela invadia a minha. Nestes momentos, havia uma ligação utópica entre nós. Mas, quando finalmente nos encontramos naquele bar, junto aos nossos amigos, estávamos ligados de verdade. Havia ali uma proximidade real. Entretanto, o que não tínhamos percebido, é que essa proximidade era também física. E isso era perigoso. Quando ela se levantou para ir ao banheiro, eu a segui. Segurei-a pelo braço e a puxei para dentro daquele cubículo apertado e sujo, e dei-lhe um beijo.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Praia de Boa Viagem

 
   O sol estava fraco, o mar estava calmo e a brisa o mais fresco possível que um mês de Janeiro permitiria. As pegadas no chão revelavam que por ali havia passado um casal apaixonado, com passos dispersos e sem direção.
   Na verdade, as pegadas eram de ontem, mas o vento não conseguiu tirá-las da areia molhada, pois agora era muito cedo e tudo se passara pela madrugada. E bom; não foi um casal qualquer que havia passado por ali, fui eu e ela, mas achei que esse ar de narrador decadente me cairia bem. Voltarei um pouco no tempo para que entenda minha decadência.
   Era tarde da noite mas ela insistira tanto em caminhar pela praia. Não sei porque raios insistira tanto ou porque eu aceitara, mas o fato é que aqui estávamos. Ela sorria maravilhosamente como sempre e se deixava levar pelo vento, deixando pegadas dispersas na areia.
   Se me perguntar do que falávamos, é fato que não lembraria, mas se me perguntar do brilho de seus olhos, ah!, esse eu não esquecerei jamais. Para ela, parecia que aquele era o dia de sua vida, estava feliz de alma e me abraçava com constância. Não que eu reclamasse, mas aquilo me agonizava por dentro.
   Sentamos na areia e a deixei deitar em meu colo. Ficamos um tempo assim, só não sei quanto. Pra mim poderia ser uma eternidade se ela não tivesse quisto entrar no mar. Eu não queria deixar, mas ela mesmo assim cortou as ondas com os braços e por lá ficou um bom tempo. Estava linda nadando à luz da lua tendo eu como único espectador, se pudesse pararia o tempo ali, mas como não posso, a vi voltar para mim.
   Levantei pronto para abraçá-la, mas esse abraço nunca se concluiu. A vi cair dura sobre a areia, inerte como o tronco de uma árvore. Vi minha vida naquele segundo em que ela caía. Nunca corri tanto, com a esperança de que se eu chegasse a tempo impediria o pior. Mas a tempo de que? Não sei o que houve com ela, quando cheguei já estava sem vida. Quase me joguei no mar com a esperança de que ele me levasse, mas me segurei ao olhar para aquele rosto. O seu sorriso ainda era radiante e talvez seja por isso que não me contive e lhe dei um último beijo.
   A levei para casa e voltei para cá, onde estou, sentado à beira da praia, olhando o mar... Esperando uma resposta de uma pergunta que não fiz. Talvez esteja esperando que por entre as ondas ela me apareça e complete o abraço que ficou pra trás.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Estática

   Não entendo nada, sequer o inevitável sol de cada dia. Imagine a vida; que me parece uma peça escrita por Deus, de uma maneira tão simples que nos leva a crer que há sempre uma rubrica escondida por entre as vírgulas nos levando a uma fatal linha de pensamento: o destino

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Páginas da Vida

   E ali naquele álbum faltavam fotos que davam continuidade a uma história, faltavam palavras que ligavam as frases das legendas, mas sobravam lágrimas para preencher esses espaços. Descobria-se agora que a maior dor está quando as lembranças estão cheias de buracos onde deveriam estar momentos em que não se viveu.

domingo, 15 de novembro de 2009

Condescendência

Suas frustrações me frustram e afetam meu cotidiano. Queria poder manipular as pessoas da forma mais conveniente para você. Meu mundo pára ao sinal de qualquer lágrima por você derramada. Seu sofrimento dói em mim. Seus olhos grandes e amendoados pedem socorro silenciosamente aos meus. Ninguém merece sua tristeza. Ao me deparar com sua face, abandonada pela alegria, minha vontade é de te enlaçar e dizer exatamente as palavras que você deseja ouvir, até te acalmar. Até trazer paz ao seu coração e expulsar todo sentimento ruim de dentro dele.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Romeu e Julieta



Eu havia passado o dia inteiro com uma angústia incessante e o coração aos pulos, numa arritmia instável. Preocupava-me em marcar uma consulta com o cardiologista. Já estava velha, devia encarar a realidade. Esses problemas aparecem depois de algum tempo de vida, era preciso fazer um check-up o mais cedo possível.

Depois de passar uma manhã exaustante, almocei e fui dar minha próxima aula. Ao entrar na sala de aula do prédio da Faculdade de Letras, me deparei com a mais sombria cena que já havia presenciado. No centro da sala se encontrava um corpo estirado no chão, banhado por sangue e com uma adaga no peito. Era uma garota, uma jovem garota. Ao reconhecer seu rosto, eu dei um grito estridente e mergulhei em um precipício internamente.

Já não existia mais coração algum dentro do meu peito, nem vida e nem respiração alguma. Foi uma experiência digna de uma tragédia de Shakespeare. A minha vontade era de procurar um veneno e bebê-lo até cair junto aos braços daquela garota, minha filha. A dor da morte não se compararia à dor que eu sentia naquele momento.

Aquilo tudo estava errado. Não era a ordem natural das coisas. Um pai ou uma mãe nunca deveria perder filho algum; não é justo, é revoltante. Fiquei paralisada por tanto tempo, que não percebi que ela tinha deixado um bilhete. Uma frase, no quadro branco, escrita com caneta vermelha. “Não me faça um meio-termo. Eu odeio isso. Eu TE odeio”.

As lágrimas vieram junto com o arrependimento. Tudo que eu fiz foi tentar ser uma boa mãe, mas eu nunca parei para escutá-la direito. O meu erro foi ter descuidado no excesso de cuidado. A dor aumentava à medida que as lembranças tomavam meus pensamentos. Eu me perdi, não sabia o que fazer. Queria poder abraçá-la, mas não o podia fazer, precisava chamar a polícia.

E foi o que eu fiz. Disquei os três números desesperadamente. “190 – qual a sua emergência?” Após alguns segundos com a minha boca aberta, mas sem voz, e com os olhos arregalados eu disse: “Eu matei a minha filha” e desliguei o telefone. Não pensei duas vezes e tirei a pequena faca do corpo dela e cravei no meu. Morri junto com o amor da minha vida.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Identidade Espelhada

   
   De todas aquela foi a pior das brigas, com os gritos mais altos, os choros mais intensos e as palavras mais penetrantes. Cada olhar era único e cada frase o mais verdadeiro possível; não havia como evitar o peito se dilacerar ao sentir o ódio emergindo profundamente.
   Seu rosto derretia de tantas lágrimas que escorriam e pareciam não compreender que já era hora de parar, pois as palavras se foram, se esvaíram pelas paredes, tentando escapar de algo pior.
   Ela levantara da cama caminhando em sua direção, que sequer, pôde se mover para escapar das mãos que o envolvia. Sentia o perigo iminente no ar e sabia serem aqueles seus últimos momentos, quando de repente sentiu-se arremessado contra a parede a dilacerar-se enquanto caía ao chão.
   As palavras tiveram razão ao escapar àquele momento que emudeceu-se após aquele último estardalhaço. Mas embora no chão, aos pedaços, ele sabia que só por falar a verdade, não poderia ser o grande culpado.