quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Praia de Boa Viagem

 
   O sol estava fraco, o mar estava calmo e a brisa o mais fresco possível que um mês de Janeiro permitiria. As pegadas no chão revelavam que por ali havia passado um casal apaixonado, com passos dispersos e sem direção.
   Na verdade, as pegadas eram de ontem, mas o vento não conseguiu tirá-las da areia molhada, pois agora era muito cedo e tudo se passara pela madrugada. E bom; não foi um casal qualquer que havia passado por ali, fui eu e ela, mas achei que esse ar de narrador decadente me cairia bem. Voltarei um pouco no tempo para que entenda minha decadência.
   Era tarde da noite mas ela insistira tanto em caminhar pela praia. Não sei porque raios insistira tanto ou porque eu aceitara, mas o fato é que aqui estávamos. Ela sorria maravilhosamente como sempre e se deixava levar pelo vento, deixando pegadas dispersas na areia.
   Se me perguntar do que falávamos, é fato que não lembraria, mas se me perguntar do brilho de seus olhos, ah!, esse eu não esquecerei jamais. Para ela, parecia que aquele era o dia de sua vida, estava feliz de alma e me abraçava com constância. Não que eu reclamasse, mas aquilo me agonizava por dentro.
   Sentamos na areia e a deixei deitar em meu colo. Ficamos um tempo assim, só não sei quanto. Pra mim poderia ser uma eternidade se ela não tivesse quisto entrar no mar. Eu não queria deixar, mas ela mesmo assim cortou as ondas com os braços e por lá ficou um bom tempo. Estava linda nadando à luz da lua tendo eu como único espectador, se pudesse pararia o tempo ali, mas como não posso, a vi voltar para mim.
   Levantei pronto para abraçá-la, mas esse abraço nunca se concluiu. A vi cair dura sobre a areia, inerte como o tronco de uma árvore. Vi minha vida naquele segundo em que ela caía. Nunca corri tanto, com a esperança de que se eu chegasse a tempo impediria o pior. Mas a tempo de que? Não sei o que houve com ela, quando cheguei já estava sem vida. Quase me joguei no mar com a esperança de que ele me levasse, mas me segurei ao olhar para aquele rosto. O seu sorriso ainda era radiante e talvez seja por isso que não me contive e lhe dei um último beijo.
   A levei para casa e voltei para cá, onde estou, sentado à beira da praia, olhando o mar... Esperando uma resposta de uma pergunta que não fiz. Talvez esteja esperando que por entre as ondas ela me apareça e complete o abraço que ficou pra trás.

2 comentários:

  1. "Esperando uma resposta de uma pergunta que não fiz."

    Realmente esse texto, nos deixa a uma resposta de uma pergunta que não fizemos. Porque as vezes parece que o amor simplesmente desaparece? As vezes isso acontece sem mesmo a pessoa, antes amada, morrer.
    Muito legal o texto, e aborda justamente esse ralo que acontece com as nossas vidas. E o escorrer desse amor, pela morte ou pelo mero escorrer.

    Bjux Cabron!

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  2. Curiosamente as melhores e as piores coisas da vida são dispensam qualquer explicação racional. Tolo é quem busca razão para as primeiras, pois, cada vez que achamos uma resposta dolorida outra ferida lancinante abre indefinidamente até simplesmente sermos forçados a parar de pensar.
    Quanto as segundas, as melhores, tolo é quem busca a razão delas, pois é possível que consiga destruir em pouco tempo algo tão raro, tão puro e mágico que jamais poderá ser explicado.
    A morte seja ela real ou "ficctícia" nos ronda, resta-nos ficar alerta para não deixar-mos fenecer os vivos que nós precisamos viver menos tristes.
    Humm Praia de boa viagem...sol fraco....rs smack smack smack

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