quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Brilho Esmeralda

   Seus olhos pregados na chuva não a deixavam mentir, estava em outro mundo onde as nuvens não eram mais rarefeitas nem o céu mais claro. Era tudo assim, igual se apresentava naquele dia. Seu quarto se transformara de repente e não estava mais sozinha como antes. Ele estava ali, com seus olhos faiscantes de tanto desejo.
   Olhavam-se obliquamente, como quem esconde uma vontade. E ela não por menos, esperava aqueles olhos se desviarem para adentrar em seu mundo. Era então uma guerra, quase que literalmente, pois aqueles olhares eram tiros que a perfuravam sem dor. Bastava um deles cessar fogo para que o outro se abrisse em tiros. Estranho como sempre encontravam um objeto novo para fixar seu olhar ao ser descoberto pelo inimigo.
   Mas ah! Como por destino a chuva aumentara, e aquele barulho entrava em seus ouvidos como uma droga, anestesiando, fantasiando, dissuadindo seus pensamentos. A chuva os encontrara. Entrava agora pelas frestas e escorria pelas paredes, derretendo-as pouco a pouco... Dissolvendo-as como açúcar. Sequer um pingo de água tocava seus corpos tão imóveis como estátuas, frente a frente sobre uma cama.
   Ela, começara a mexer nos cabelos, em uma busca sem fim, ele, olhava para as mãos como a procurar uma resposta ali escrita; até que não mais aguentaram a vontade e seus olhares se ergueram como se fossem um, e de fato, se tornaram. Se fundiram sem ter como fugir. Se prenderam e não mais se soltaram. Se atraíam em conjunto e se aproximavam cada vez mais. O resto do corpo era mero coadjuvante da situação. Era puxado pelo que importava, os olhos.
   Quando enfim puderam se enxergar no brilho do outro, eles entenderam que havia acabado ali sua missão.
   A chuva se empolgara e já estava ao pé da cama, como mera espectadora. Não só ali, mas em toda parte. Dissolvera todas as paredes, portas e janelas. Nem o teto escapara à sua curiosidade. O teto estava transparente, mas por ele não passara uma gota sequer - estavam protegidos.
   Os olhares se separaram e os brilhos voltaram à sua originalidade. Sem perceber, estavam tão próximos que ouvia-se a respiração do outro e enxergava-se as gotas de suor em suas faces. Até que em um estouro acordaram e não se via mais nada. Toda a luz se fora com aquele relâmpago.
   Como que de repente, a gravidade ficara mais forte e eles caíram... Não sabiam como, mas sabiam estar um sobre o outro. Sentiam o calor dos corpos, o toque das mãos, a respiração tão próxima...
   O celular tocara, - ela se levantou - notou que a chuva estava um pouco mais fraca, mas continuava insistente. Pegou seu celular que refletia na tela sua tristeza, o desligou e enfim... Desistira. Ela sabia; nem em sonho podia ser feliz.

2 comentários:

  1. Vale dá uma revisadinha, mas adorei o texto. Você tem uma coisa muito rara hoje em dia IMAGINAÇÃO e sutileza para descrever o que geralmente, para certas garotas da sua faixa etária um grande tabu: O desejo.
    Eu antigamente tinha sonhos despertos e as vezes os controlava, mas sempre que queria ficar com minha "amada" tudo dava errado, nem nos sonhos que eu controlava eu conseguia ser "feliz.rs"

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  2. "A chuva os encontrara. Entrava agora pelas frestas e escorria pelas paredes, derretendo-as pouco a pouco... Dissolvendo-as como açúcar."

    Nossa, esplêndido!!! Os detalhes, o sincronismo, as metáforas! Quase posso assistir seu texto em uma tela “retroprojetada”, amei!!!

    Bjux!!!

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