quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Paris, Jardim das Tuileries

   Fazia muito frio naquele canto da cidade. Apesar da primavera irradiar os olhos de quem passava por ali, o sol andava preguiçoso para despertar e promovia um belo espetáculo, de único espectador assíduo de todos os domingos, eu mesmo. Era ali, que impreterivelmente passava quando minhas ideias pareciam transbordar por um furo inexistente em minha cabeça. La Rue Castiglione.
   Não esperava ninguém, sequer eu mesmo. Nenhuma expectativa acometia minha alma, nenhuma pergunta se refletia em meus olhos; somente lembranças do que nunca existiu. Eram sonhos que se revertiam em imagens e se confundiam com minha realidade.
   Ao se erguerem, meus olhos se depararam com a inesperada festa de pequenos flocos, caindo lentamente, dançando ao ritmo do vento. Reluziam as cores do sol, como pequenos diamantes que se desfaziam sob a cobiça da mão humana. Não que fosse comum em plena primavera um espetáculo daqueles, mas havia somente uma semana, despencavam nuvens do céu sobre a minha cabeça em forma de neve não tão delicada.
   Somente desejava em meu íntimo estar sozinho por entre as árvores, assim, sentado em um banco, mas existem pensamentos que por mais que nos esforcemos, se fundem a nós mesmos como se fossem realidade. E por esses, dentre outros, é que a vi andar em minha direção, com um olhar esguio e passos tanto quanto. Parecia não me notar, como se assim conseguisse me irritar.
   Minha mente sempre foi assim de me pregar peças quanto ao real. Outro dia me encontrava conversando com uma árvore na rua como se fosse um velho conhecido, até que fui alertado pelas risadas alheias de que novamente passava pelo ridículo.
   Logo que a vi se aproximando, tratei de piscar incessantemente os olhos e esfregá-los como punição por sempre me enganar. De verdade ou não, ela me causava uma sensação que não saberia explicar. Talvez por não nos falarmos a dias - e o meu desejo mais intimo ser abraçá-la profundamente -, não podia correr esse risco.
   Esperei ela se aproximar sem me olhar e sentar ao meu lado, observando também os pequenos flocos de neve, e me levantei.
   Meu medo foi maior do que eu mesmo naquele instante, sem saber distinguir o meu real. Mas sei que depois daquele dia meus olhos nunca mais me enganara, talvez porque ela, nunca mais me procurara.

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