quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Vasto mundo

   Ele possuía uma alma cromada de enganos e desesperos, um corpo inerte no ontem, assim como olhos que nada refletiam, que eram mortos como frutas secas em sua beleza oscilante. Passava cada dia como único, unicamente metódico, desgastante, irrefutável. Andava de lá para cá em uma cidade que desvalorizava seu íntimo e pormenorizava sua mente.
   Houve o dia em que lhe ocorreu de levantar um pouco mais tarde, perder a hora de sair e por ali ficar sentado na cadeira mais usual que tinha, de pés quase quebrados, roídos - sem dar satisfações a si. Teve um instinto de abrir a janela, se libertar um pouco da prisão domiciliar que vivia, deixar o grito uníssono da cidade ressonar em suas paredes, impregnar no ar seu cheiro de morte e desilusão.
   Ele morava no primeiro andar, de frente para a rua e via todas as noites, assim que chegava do trabalho, o tráfico e a prostituição escancaradas em sua porta como um corpo que sangra frente a um hospital. Tinha vontade de mudar sua realidade, sair daquele meio que lhe acinzentava, mas não tinha dinheiro, não tinha influência, era apenas um número entre os desesperados. Há uma semana tentou, denunciou o que via, mas nunca teve esperanças.
   Ao levantar, viu pela janela apenas um homem na rua, escorado no muro, logo, abriu toda a cortina medíocre que a cobria e tentava estancar a realidade. Em um lapso de momento, os raios de sol cobriram-lhe a face e cegaram seus olhos, que em um estalo surdo fecharam-se para sempre... Morreu; ali no chão, sem atendimento, sem cruz, sem ninguém dar pela falta. Somente os jornais no dia seguinte notaram e estamparam na manchete: "Mais um morre vítima do tráfico no Rio".
   O nome dele ? Não importava, era só um Raimundo.

5 comentários:

  1. Os dois primeiros parágrafos são SUBLIMES. Realmente às vezes dá até medo de ler essas coisas e lembrar quem é você. rs

    Diante do quadro pintado. perdão, a morte pra ele foi algo legal rs.
    Poxa, Marília é sua seguidora e não é do meu blog...
    Prova que ela tem bom gosto.
    bjos

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  2. AHSash, adorei a utilização do nosso conhecido Raimundo nesse texto. Como "A Moça do Brinco de Pérolas" - Pegar uma arte e fazer dela uma história.

    Bjux!

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  3. A realidade do texto é triste.. E mais triste ainda é ter que concordar com o Adriano. Não que concordar com ele seja triste.. Triste é o que ele disse e eu preciso concordar. As vezes a morte pode cair como um alívio.. Acho que no fundo, ninguém tem medo da morte. Temos medo do sofrimento.. e o pior é que nem sempre podemos evitar.. =/
    Beijo!

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  4. De que adiantaria ele morrer? pra ele nada,não sabemos o que há do outro lado a dúvida e o sofrimento podem existir tanto lá como aqui, ele não morreu por escolha, se a assim fosse pelo menos teria sido mais interessante, pois na sua mente todas as possibilidades teriam se esgotado por aqui restando só um caminho...todos morrem e a maioria se vai sem poder argumentar.
    "há uma semana tentou, denunciou o que via mas nunca teve esperanças."
    Quem não tem um resquício de esperança, não se move, fica inerte... então me desculpe por não concordar, mas Raimundo tinha alguma expectativa quando fez a denuncia.

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  5. Os dois primeiros parágrafos são SUBLIMES[2]

    Realmente, dá muita raiva isso de ser apenas mais uns na multidão.
    Dá ainda mais raiva não sabermos se ser menos um vale a pena ou não.
    A gente não sabe.=)

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