sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Memórias de um Diário

   Já era meia noite e meia e nada da mensagem chegar. O celular piscava, vibrava, quase conversava com aquela garota pálida que morava por ali. Tinha olhos meio grudados, que observavam um céu escuro de Setembro, mas que não a levavam a lugar algum, já que aquela não passava de uma noite vazia de fim de ano. Como tantas outras que se foram e ela nem viu.
   De importante, havia apenas um sentimento de vai-vém, como uma brisa que converge em sua boca, passa todo seu corpo, e diverge em suas pernas prestes a fazê-la voar. Sentia ainda uma água gelada cismando de descer da cabeça aos pés à medida que o tic do relógio ecoava em seus ouvidos. Mas de todo, o resto era comum: a mesma euforia, o mesmo nervosismo, ela não mudava, era sempre igual: Os mesmos vícios, os mesmos tiques e as mesmas marcas...
  Já às duas da manhã, essa mesma cabeça girava a cidade na busca de uma resposta para o silêncio daquele quarto, interrompido de forma intermitente. Para ela, faltava ali algo vital que segurasse seu corpo, como uma muleta da alma, um braço que lhe completasse os membros, visto que ela não era normal, era alguém que sentia uma falta aguda de si e era apenas meia do que as outras costumam ser... Era um tanto quanto sem graça.   
    Passadas duas, três, ah, quatro horas da manhã, o céu já estava clareando por ali. Sem resposta, sem sono, sem vontade, ela não dormia. Seu olhar era atento. Se pudesse gravar tudo que pensou nessa noite, escreveria um livro. Não era de extrema criatividade, mas pensou em tantos momentos que não desfrutara nem desfrutaria...
  O sino da Igreja repicou às seis. Era enterro. Morrera na cidade um conhecido, um garoto desengonçado que vivia trancado no quarto. Já se corresponderam algumas vezes por cartas e mensagens, já trocaram telefone e e-mails, mas, no fundo, não sabia sua voz, seus gostos ou hábitos... Era um daqueles desconhecidos dentre tantos da sua agenda. Para ela, não era novidade esse tipo de gente.
   O sino repicou. Foi um badalo que entrou em suas têmporas como um martelo, o sono veio de vez. Talvez a lembrança de alguém que morria a fizesse dormir e se sentir feliz por estar viva... Viva! Uma meia garota, com uma meia esperança e que só resultaria em meias consequências... Repicou de novo e ela caiu em devaneios; o sono pegou e ela pensou que quem sabe amanhã a mensagem finalmente não chegue. 

3 comentários:

  1. Nossa eu falei! Em quanto mais demora a postar, mais lindo o texto vem! Amei essa ultima frase, puts num tem como vir de vc nala, sério!!! Muito poétio!

    Bjux me-liga!

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  2. Ahh, haha, já era, mudei o texto, tirei a frase :( omg. mas tudo bem ! Beijo

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  3. As vezes se vive tantas histórias extraordinárias "dentro de si" e ordinárias "fora" que penso que essa dubiedade não é mera coincidência, é proposital.
    O fato é que nós, contaminados pela influência das várias mídias que nos informam modelos a seguir queremos sentir ao máximo todo prazer e sensações do contato físico e ao mesmo tempo toda maviosidade do turbilhão de sentimentos dos apaixonados. Agora pense num casamento difícil e quase improvável. Logo há uma busca frenética, ás vezes deseseperada, não raro insana e a consequente frustração e vazio. Logo, nos voltamos para o lado e pensamos: nossos pais tinha razão.

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