domingo, 20 de fevereiro de 2011

O primeiro não se esquece

Era tarde da noite, um vento forte batia na janela e a lua se insinuava bem ao fundo de um cenário urbano acinzentado. Lua cheia, de cor forte, chamando tanta atenção pelo tamanho que mais parecia uma pintura no céu.

Em uma das janelas de um prédio, uma jovem perturbada com olhos cansados e corpo deitado sobre o parapeito olhava a rua vazia da madrugada. Ela virava-se várias vezes para a lua, para as estrelas e enfim para o horizonte. Era um trabalho repetitivo que fazia pensativa várias vezes por noite e seguia para deitar. Esperava a brisa das primeiras horas do dia chegar para suspirar fundo, deixar as lágrimas descerem e ir limpa-las com o travesseiro.

Nesta noite, a brisa não veio, mas lágrimas irrepreensíveis foram lhe atingir o busto sem serem interrompidas. Desceram frias, mas carregadas de quentes lembranças que a tornaram mornas em contato ao corpo inerte. O dia foi tenso.

Há dias, terminara com aquele garoto, aquele que ainda ama. Suas palavras ainda não lhe desceram a garganta; seus abraços ainda não lhe esfriaram o corpo; e seus beijos ainda não lhe secaram a boca. Ainda doía. Doía acordar e não contar com sua presença, andar e sentir suas mãos vazias, e então engolir cada palavra de carinho. Doía ainda mais, o telefone mudo, que não saía do bolso de seu jeans, esperando algum sinal de vida, e enaltecendo a simples lembrança de que ele se foi, de que eles não se encontrariam nem por acaso nas ruas, e de que sua casa, tão próxima, estava vazia de seu cheiro e de seu sorriso.

Suas lágrimas escorriam cada vez mais e alcançavam cada vez maior distância tornando inevitável que seus olhos ardessem e precisassem ser lavados. Sentir a água fria no rosto a fez acordar para a realidade e enxergar que na iluminada sala de estar ainda havia gente. Era sua irmã mais velha, deitada no sofá, que ao notar a presença estranha logo perguntou:

"Que foi Ju?"
"Você sabe..."
"Estava chorando por ele de novo?"
"Estava."
"Sabe irmã, senta aqui comigo... Você ainda gosta dele não é?"
"Gosto. Eu não consigo que chegue uma noite sem lembrar do que passamos... Não consigo olhar para o céu e não ver seu rosto. Eu pareço uma criança sempre que a noite chega, enquanto assim que o sol nasce eu finjo cada vez mais convincentemente para mim mesma de que ele é uma estação passada."
"Mas até mesmo o seu espelho sabe que, exatamente como um verão, ele chegará novamente para te perturbar, te fazer suar e te fazer sorrir."
"Eu sei Marina... Ele nunca me dará paz e isso me machuca."
"Ju, pense comigo. No fundo, é como se você tivesse acabado de cair e quebrado as pernas. Agora, elas doem e você não consegue curá-las, então quebre o braço, que logo se esquecerá delas. Essa é a lógica do amor."
"Talvez você tenha razão; mas eu não queria agir assim, pois e quando meu corpo todo doer? Eu tiver partido cada pedaço do meu coração? As dores serão muitas e tão grandes que eu acabo me matando minha irmã... E esse amor tanto vale ?"

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